GAMBIARRAS CULTURAIS
Enviado abril 1st, 2010
Por Ediney Santana
Quando Gilberto Gil foi Ministro da Cultura ele nos provou que nunca deveria ter deixado os palcos. Gil acabou “entregando” o Ministério ao seu amiguinho Juca Ferreira. Juca, todos os dias, deve acender uma vela para São Gilberto Gil; ter um amigo como esse pode valer, como valeu, um cargo de ministro. Juca só era amigo da pessoa certa na hora incerta para a cultura nacional.
Sinto-me constrangido e humilhado quando vejo o Ministério da Cultura e empresas como a Petrobras financiando “artistas” os quais justamente não precisam de patrocínio público, enquanto inúmeros grupos da cultura imaterial, folclóricos ou instituições culturais sérias, que realmente necessitam de investimentos públicos, são tratados com indiferença ou a pão e água.
Na Secretaria da Cultura do Estado da Bahia temos a reprodução bizarra das anti-politicas públicas adotadas pelo MinC. Um secretário sem vocação para o gerenciamento público ou para as contradições que é lidar com um universo tão plural quanto o universo cultural do Estado.
Márcio Meireles , assim como seu colega Juca, tem um bom amigo, ou melhor, amiga: a ausente primeira-dama do Estado: não foi ela sozinha que decidiu quem deveria ser nosso Secretário da Cultura? Boa parte dos políticos da Bahia e indicadores de cargos públicos nunca leram nem “As aventuras de um secretário no reino dos espelhos” quanto mais um Herculano Neto ou foram ao teatro. Por tudo isso um Juca ou um Meireles podem gerir a cultura do Estado e do país como se fossem os banheiros das suas casas.
Todo mundo lembra-se da peça teatral de 5º categoria que foi a posse do Secretário da Cultura do Estado, na Rocinha, Pelourinho. Aconteceu de tudo: lágrimas encomendadas, fotos, caras e bocas e, é claro, muita esperança falsa. Depois de quase quatro anos os moradores da Rocinha continuam lá sem política pública alguma, convivendo com a única presença do Estado em suas ruas: o braço repreensivo da polícia, em um lugar o qual seu Márcio jurou ajudar e incluir nas políticas públicas de seu governo.
A Rocinha foi a primeira vítima de um governo sem verdade, governo de “amigos”, governo tão estupidamente seletivo quanto qualquer outro, um governo que não resistiu a sedução do poder e enquanto vai se perdendo nesse triste e vazio jogo de sedução, as luzes da cultura baiana vão, pouco a pouco, se apagando: teatro sem público, músicos sufocados por uma produção carnavalesca sem compromisso algum com o que não for lucro, grana e mass media , artistas plásticos desprezados e sem espaços decentes para expor suas obras, escritores sem incentivo algum, enfim, a cultura da Bahia está na UTI, do HGE, é claro. Então, já sabemos o que pode acontecer.
No interior do Estado a situação não é diferente da capital. A incompetência do governo vem mascarada nos Pontos de Cultura (ideia boa, mas estupidamente gerenciada), nos intermináveis seminários ou cursos sem função nos quais os agentes do governo esbanjam prepotência e sub-cultura política; os conselhos de cultura das prefeituras não raro vivem a mercê da delinquência de prefeitos os quais não deixam passar nem as migalhas oficiais que deveriam ser totalmente investidos no fomento cultural dos municípios.
Esperar melhora nesse quadro é pura ilusão. Cultura e educação não estão na ordem do dia. O legado cultural de um povo não cativa muitos eleitores. Eleitores são cativados por bolsa família, “banho” de luz, “banho” de asfalto e “ moderníssimo” estádio da Nova Fonte Nova para dois mambembes times jogarem.
Assim mata-se lentamente o fazer cultural de um povo; assim a Bahia é empurrada para um estágio primitivo de civilização no qual não há espaço para fantasia, sonhos e a sempre busca de novas utopias. Nesse governo não podemos confiar, mas na força inventiva de cada um de nós, na resistência por um lugar melhor e na luta pela nunca perda da dignidade podemos sim, nisso, ter um poderoso aliado para enfrentarmos essa mediocridade a qual tentam nos servir em prato indigesto e requentado como se fosse novidade, quando não é nada além de vandalismo político e social.
Ediney Santana
O escritor Ediney Santana nasceu em Mundo Novo – Chapada Diamantina-Ba. Vive em Santo Amaro- Recôncavo-BA
http://cartasmentirosas.blogspot.com
Tags: Ediney Santana, Política Cultural, Politicas Publicas
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