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CAEM AS MÁSCARAS

Enviado em dezembro 19th, 2009

Há muito tempo estamos contestando a forma como o Ministério da Cultura, através de seu principal funcionário, o Ministro Juca Ferreira, vem tratando as questões da política cultural do país. Temos combatido veementemente a reforma da Lei Rouanet proposta pelo Minc, porque entendemos que é autoritária, estatizante, discricionária. O Minc gastou fortunas fazendo shows de apresentação da reforma da lei pelo Brasil todo, tentando angariar adesões, fez consulta pública, diz que recebeu mais de 2000 colaborações e, finalmente, enviou o projeto para o Congresso, sem debate-lo com ninguém. Porque esse mêdo? Porque a sociedade não teve acesso a essas tantas contribuições? Onde está a transparência tanto anunciada? O novo projeto mais parece programa político em época de campanha eleitoral,  ”vamos fazer isso, vamos fazer aquilo”…mas nunca diz como e nem quando. O Ministro anuncia aumentos significativos de verbas, mas não diz de onde vem esses recursos, deixa tudo para ser regulamentado posteriormente, à vontade do rei e sua corte. Enfim, quer literalmente liquidar com a Lei Rouanet, pois a nova lei, REVOGA-A, e havia um compromisso de não fazê-lo.  Mas as máscaras começam a cair, Juca Ferreira já centrou sua artilharia nos artistas, produtores, advogados, políticos e mais recentemente, nos jornalistas, naquele episódio do “pinto” - “vocês são pagos para mentir”.

Todos começam a entender os meandros da psicologia messiânica e autoritária, desse funcionário público perdido no Ministério da Cultura.

Leiam abaixo matéria da Revista Veja desta semana, assinada por Sérgio Martins (foto Fabio Motta)

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ORGÃO MINISTERIAL

Enviado em dezembro 5th, 2009

Por Lúcia Guimarães, de Nova York, para o Estado de São Paulo - 30/11/09

Recebi um alerta online sobre a indignação do ministro da Cultura. Diante da declaração do alto funcionário do Governo Federal, fui me informar melhor sobre a celeuma. “Meu pinto, meu estômago, meu coração e meu cérebro são uma linha só. Não são fragmentados. Fui desrespeitado pela imprensa que reverberou sem investigar”, disse Juca Ferreira.

Acusem-me de pudica, mas a ideia de um ministro de Estado arrolando seu pênis como vítima de difamação me pareceu, para começo de conversa, inédita. Para continuar a conversa, de mau gosto. E para terminar a conversa, alarmante. Se o cérebro do ministro está numa “linha só” com o seu instrumento reprodutor, há que temer pela política ministerial.

Vamos supor que um aposentado Joaquim Maria Machado de Assis vivesse entre nós e requisitasse uma bolsa federal para concluir Dom Casmurro. A literatura do nosso romancista maior provoca êxtase, mas não poderia depender da tal linha direta. Ou seja, seria preciso tomar Viagra para ter uma reação fulminante ao ler Bentinho confessar que “andava cosido às saias” de Capitu. Dom Casmurro seria desprezado para dar lugar a O Caminho das Borboletas, da pneumática Adriane Galisteu? Teriam feito um gato na anatomia ministerial?

No século 16, o médico francês Ambroise Paré, pioneiro no tratamento cirúrgico de feridas de guerra, declarou que o sêmen vinha do cérebro. Literalmente. Nos séculos seguintes, o comportamento masculino refletiu um esforço para comprovar a teoria no plano metafórico.

Deixo claro que reservo a minha solidariedade para qualquer vítima da publicação de um rumor como fato. Assassinato de reputação é um esporte em voga não só na nossa imprensa, como em qualquer mídia, livre ou sob restrição autoritária. Sou a primeira a saltar do bonde do corporativismo profissional. Não acredito que jornalistas tenham um talento congênito para defender a liberdade, embora a profissão seja essencial para o sistema democrático. Tanto quanto os ocupantes do poder, jornalistas podem ser vaidosos, pusilânimes e dispostos a privilegiar versões de fatos.

Confesso até que sempre me preocupei em frequentar socialmente ambientes profissionais diversos porque notei, ainda estagiária, uma certa insularidade, uma ilusão de superioridade moral entre meus pares.

Mas precisava invocar o pinto, ministro? Precisava convocar a nação a “relaxar e gozar”, ex-ministra? Precisava se gabar de engravidar a dona Marisa na primeira noite, presidente?

O acato à formalidade do cargo é uma forma de respeito ao público que elege seu governo. Sim, somos uma cultura tropical, calorosa. Distribuímos beijinhos para estranhos. Sem justificativa, ficamos de mãos dadas com ditadores sanguinários como Mahmoud Ahmadinejad.

Na semana passada, um veterano jornalista indiano comentou que era uma tortura para o primeiro-ministro Manmohan Singh ser o homenageado do primeiro banquete de Estado da Casa Branca de Barack Obama. “Ele não vê a hora de voltar para o hotel e afrouxar o colarinho”, disse o editor. “Detesta pompa e formalidades.”

Eu também. Não vejo a hora de correr para casa e descalçar o salto alto. Em ocasiões formais e entediantes, não é raro me distrair e começar a ter visões de um pijama de algodão pele-de-ovo, estalando de limpo. Mas isso não me leva a chegar na festa já de pijama ou de usar, em público, a linguagem que usaria na intimidade.

A decisão arbitrária sobre quando e como romper com o protocolo sugere autoritarismo. Pressupõe que o interlocutor - no caso, o povo brasileiro - deve ser submetido à informalidade do poder, sem que tenha a opção da contrapartida. Se eu for convocada para uma coletiva e perguntar sobre a anatomia de um ministro, serei enxotada pela segurança. Como não poderia cobrar do Ministério do Turismo meu fracasso em chegar a um orgasmo depois de passar dez horas presa em Congonhas. Perguntar à gentil dona Marisa como foi sua primeira noite me levaria a considerar seriamente a cidadania canadense.

Há algo de elitista na derrubada de fronteiras de convivência pública. O respeito ao protocolo de um cargo não é um tique ideológico. Usar corretamente a língua portuguesa não é uma indulgência de direita. Evitar palavrões em público, manter privada a vida privada não são decisões peemedebistas ou petistas.

Uma das bombas de efeito retardado da ditadura militar é a atitude de toda uma geração que iguala hierarquia a ilegitimidade. Quanto custou ao Brasil o niilismo tão bem exemplificado quando a câmera registrou o espontâneo toc, toc, toc palaciano diante uma tragédia com quase 200 mortos? Ao se instalar no poder, essa geração, não importa o partido, leva para os gabinetes um desprezo pela etiqueta jamais perpetrado por brasileiros humildes que diz representar.

Já ouvi especialistas em oratória para executivos recomendar a quem tem medo de falar em público: imagine que as pessoas na audiência estão de calcinha e cueca. É um recurso imaginário para o palestrante se sentir no controle dos ouvintes. Parece que a estratégia foi virada ao avesso em Brasília.

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A Polêmica do Orgão do Ministro.

Enviado em dezembro 3rd, 2009

Polêmica

O Globo, 30/11/2009

Após resposta exaltada sobre panfleto, Juca Ferreira, ministro da Cultura, se retrata por meio de nota oficial

SÃO PAULO - O ministro da Cultura, Juca Ferreira, divulgou uma nota de esclarecimento sobre a resposta indignada que deu à imprensa na última quarta-feira sobre as acusações de que o Ministério da Cultura produziu e imprimiu, com recursos públicos, um panfleto chamado Vota Cultura, no qual estimula eleitores a eleger parlamentares que apoiam as políticas da pasta.

“Desrespeitado, retruquei. Fui, entretanto, infeliz na minha manifestação. Esta passou a impressão de que eu estava generalizando minha indignação para com a imprensa toda. Deixo claro: não tive qualquer intenção de generalizar, e nem generalizei. (…) Reconheço que a resposta - fruto da indignação frente às injustas acusações de que estaria fazendo campanha eleitoral e mau uso do dinheiro público - foi intempestiva. Minha indignação, ainda que legítima, permitiu sua descontextualização. Por isto me penitencio”, escreveu o ministro na nota.

Na semana passada, com os olhos marejados e em voz alta, Juca Ferreira disse estar indignado e emocionado com as acusações.

- Meu pinto, meu estômago, meu coração e meu cérebro são uma linha só. Não são fragmentados. Fui desrespeitado pela imprensa que reverberou sem investigar e por dois ou três deputados - disse o ministro. - Não acredito em pessoas que não têm capacidade de se indignar. Vocês recebem (dinheiro) para escrever mentira - acusou.

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O MINISTRO PERDE A LINHA (Que Linha?)

Enviado em novembro 27th, 2009

Reprodução do Editorial do Jornal O Estado de São Paulo de 27/11/09

O MINISTRO PERDE A LINHA

Pode alguém capaz de proferir disparates como os que proferiu o sr. Juca Ferreira exercer o cargo de ministro de Estado e, sobretudo, de ministro da Cultura? Esta é a pergunta que muitos brasileiros gostariam de ver respondida por quem fez do sr. Juca Ferreira ministro da Cultura e tem a competência para afastá-lo do cargo sem a necessidade de consulta a outras instâncias do poder público: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Convidado a participar de uma audiência em sessão conjunta das Comissões de Constituição e Justiça (CCJ), Assuntos Econômicos e Assuntos Sociais do Senado para discutir o projeto do Vale-Cultura (já aprovado pela Câmara), o ministro Juca Ferreira foi interpelado sobre a edição com dinheiro público de um panfleto com finalidade eleitoral distribuído na ocasião por seu Ministério.

Sem encontrar explicações convincentes para a publicação, Juca Ferreira primeiro tentou negar que seu Ministério tivesse algo a ver com o caso, depois passou a criticar os parlamentares que levantaram o assunto, acusou jornalistas que o entrevistaram ? “vocês recebem para dizer mentira, eu não”, afirmou ? e acabou perdendo a compostura, ao empregar palavrões para tentar mostrar que “tem capacidade de indignar-se”. Indignados devem ter ficado os que ouviram ou tomaram conhecimento de tais declarações de um ministro de Estado da Cultura.

O folheto distribuído aos senadores pela assessoria do ministro é claro. Na capa, além do título “Vota Cultura”, está impressa a frase “Apoie o parlamentar do seu Estado que vota pela cultura”. Se isso não é um pedido de apoio, não se sabe o que mais possa ser. O folheto tem a lista de 336 parlamentares que, segundo o Ministério, compõem a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura ? ou seja, aqueles que o ministro apoia.

De início, Ferreira procurou dar desculpas genéricas aos senadores, dizendo que seu Ministério nada tinha a ver com aquilo. “Não tem um tostão do Ministério. O folder foi uma iniciativa da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura, para a celebração do Dia da Cultura em sessão solene na Câmara. Foi um erro. O Ministério não é responsável por este folder. Não se justifica a reação. Isso não é propaganda eleitoral.”

Em seguida, o Ministério distribuiu nota na qual garantiu que o material era resultado de uma “ação conjunta” da Frente Parlamentar, do Fórum dos Secretários de Cultura, da Câmara dos Deputados e do Ministério, e que não tinha finalidades eleitorais, pois “o folder conclama os cidadãos a participar e contribuir para as discussões, sendo chamado a apoiar o parlamentar que vota pela cultura”. Ora, de que maneira, senão pelo voto, os cidadãos podem apoiar um parlamentar?

Mais tarde, em nova nota, cheia de explicações, o Ministério acabou por admitir explicitamente: “O folder foi impresso com recursos do Ministério da Cultura.”

Antes que o Ministério confessasse sua responsabilidade no caso, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Demóstenes Torres (DEM-GO), advertia que “gastar dinheiro público para promover parlamentares é um ato de improbidade administrativa”. Além disso, a iniciativa do ministro da Cultura pode trazer aborrecimentos aos parlamentares citados no folheto, que podem ser acusados de fazer propaganda eleitoral antecipada com dinheiro público.

Quando a questão já estava mais clara, e a responsabilidade do Ministério evidente, o ministro Juca Ferreira atacou a imprensa. Ela “tem de investigar antes de publicar”, disse. “Alguém faz uma espuma e vocês vão atrás sem investigar. Criaram um factoide e vocês são vítimas desses factoides.” Quando perguntado se estava emocionado, descontrolou-se: “Eu sou assim. Meu pinto, meu estômago, meu coração e meu cérebro são uma linha só. Não sou um cara fragmentado. Fui desrespeitado pela imprensa, que reverberou sem investigar, e por dois ou três parlamentares.”

A reação do senador Demóstenes Torres às declarações sintetiza a de muitos brasileiros: “O que assusta não é o fato de ele ser um ministro, pois desse padrão o governo está lotado. Apavora é ser da Cultura.”

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“Imprensa é paga para mentir” (Juca Ferreira)

Enviado em novembro 26th, 2009

SAMANTHA LIMA
DA SUCURSAL da FOLHA DE SÃO PAULO DO RIO

Imprensa é paga para mentir, diz ministro

Juca Ferreira afirma que polêmica sobre panfletos pagos por sua pasta é um “factoide” e que impressão foi legítima

Para ministro, oposição criou crise sobre assunto por temer que Vale-Cultura, do governo federal, seja utilizado para promoção de filme sobre Lula

O ministro Juca Ferreira defendeu ontem a divulgação de impresso com nomes de deputados que supostamente defendem a cultura, classificando de “absolutamente” legítimo o governo ter financiado o material, responsabilizou a oposição por criar um “factoide” e atacou jornalistas, a quem chamou de “pagos para dizer mentira”.

O ministro atribuiu as queixas contra o folder com 250 nomes de parlamentares a uma reação da oposição ao crescimento de Dilma Rousseff (pré-candidata governista à Presidência) nas pesquisas eleitorais, além da tentativa de prejudicar a votação do programa do governo federal Vale-Cultura.

Anteontem, durante a sessão para votação do vale -cartão magnético, com saldo de até R$ 50 por mês, por trabalhador, a ser utilizado no consumo de bens culturais- Ferreira havia negado que o ministério tivesse produzido e mandado imprimir o material.

Horas após a negativa dele, a pasta admitiu a produção de 4.500 cópias, ao custo de R$ 11 mil. Ontem, em nota, o ministério rechaçou que o material tenha características de propaganda eleitoral.

Ontem, questionado por que a pasta acabara reconhecendo que havia mandado produzi-lo, Ferreira perguntou: “Que material?”. “O folder”. “Que folder?”. “O folder como o nome dos deputados”, especificaram os jornalistas. “Só vou dizer isso: criaram um factoide e vocês são vítimas desses factoides. Eles criaram isso para atrasar a votação do vale, porque acreditam que está sendo criado para promover o filme do Barreto [Luiz Carlos Barreto, diretor de "Lula, o filho do Brasil'].”

Ferreira alegou que o material é suprapartidário por ser da frente parlamentar da cultura. “Não tem nada de ilegítimo. A frente não teria tempo de publicar e pediu pra gente publicar. Tem ofício. Publicamos e não tem nada de ilegítimo.”

Questionado por que o material tinha nome de deputados, com dedo em riste para a repórter da Folha, afirmou: “Vocês estão comendo mosca. Tem o nome do Rodrigo Maia [DEM-RJ]. Você acha que vou fazer campanha para ele? Olhe nos meus olhos e diga”.

Ao responder por que estava emocionado, o ministro disse: “Eu sou [emocional]. Meu pinto, meu estômago, meu coração e minha cabeça são uma coisa só”. Afirmou que repassa recursos para todos os Estados, independentemente do partido político dos governadores, e concluiu, já de saída, olhando para os jornalistas: “Vocês são pagos para dizer mentira”.

Ferreira esteve ontem no Rio para participar da cerimônia de lançamento do novo formato do programa de financiamento do BNDES à cultura, o BNDES Procult. O programa foi ampliado para atender projetos de preservação do patrimônio histórico, teatro, música, jogos eletrônicos, fonográfico, editorial e espetáculos. A verba é de R$ 1 bilhão até 2012.

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