A CULTURA DA POLÍTICA
Enviado em agosto 18th, 2010
Publicado no Jornal “O GLOBO” no dia 14/08/10
Por Cacá Diegues
Outro dia escrevi aqui sobre, as relações entre a política e a cultura. Reclamei sobre tudo de que ainda não tinha lido ou ouvido, de nenhum candidato a presidente, qualquer referencia `a cultura. Menos de uma semana depois, os quatro principais aspirantes `a Presidência estavam debatendo na televisão e mais uma vez ficamos virgens de informação sobre o assunto.
O programa da TV Bandeirantes começava com suntuosa encenação musical, nos aproximado de grande orquestra iluminada no fundo do palco, enquanto os candidatos, em primeiro plano, permaneciam na sombra. Sonhei que tentavam nos dizer que, em algum momento de nossas atribuladas vidas, por mais curto que ele fosse, o êxtase artístico uniria os homens acima de suas pequenas causas.
Encerrada a promissora introdução, apagaram-se as luzes sobre músicos e o jornalista Ricardo Boechat informava que havíamos visto e ouvido o maestro João Carlos Martins a reger a Filarmônica do Sesi. As luzes se acendiam agora sobre os quatro políticos e, iniciando-se o debate, nunca mais se ouviu uma só palavra sobre a criação artística, o imaginário humano, a linguagem simbólica que nos une a todos e faz progredir a humanidade, o amálgama critico da civilização. A cultura, enfim.
O programa cívico nos fazia compreender que o maestro e seus músicos haviam servido de protofonia representativa daquilo que deve pensar a grande maioria dos políticos brasileiros. Isso é, que a cultura não passa de um supérfluo dispensável momento de recreação, um ornamento social, cortina rendada que se abre a papos mais sérios. Boa mesmo para bater o bumbo que anima os palanques de memoráveis campanhas políticas.
Apesar de suas dificuldades, o Brasil é um pais que se apropria muito rapidamente das novidades que surgem no resto do mundo, mesmo que `as vezes não sejamos capazes de absorver corretamente o sentido mais profundo delas. Mas esse desprezo político pelo valor ontológico e estratégico da cultura não é uma moda mundial. Muito pelo contrário.
Desde que, na década de 1930, Franklin Roosevelt criou a “ política dos três fff “ ( flag follows film, a bandeira acompanha o filme), o Estado norte-americano procura proteger a produção cultural do país. Um pretexto para isso é que cinema, a musica, a literatura, a cultura exportada sempre leva com ela não só o modo americano de viver e uma ideologia própria para o entendimento mutuo, mas também os produtos nacionais que enriquecem o país.
Há duas semanas, por exemplo, o “ New York Times “ anunciou que a Open Society Institute, empreendimento beneficente do bilionário George Soros, conhecido investidor em Wall Street, estava doando 11 milhões de dólares a organizações culturais nova-iorquinas, a partir de um mecanismo que lhe permite deduzir esse valor de seu imposto de renda.
Na Europa, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, enfrentou agressiva oposição da sociedade , vinda da esquerda e da direita, quando ameaçou modificar a política de incentivos culturais, uma tradição nacional consolidada durante a administração do escritor André Malraux, ministro da Cultura de Charles de Gaulle. Na Inglaterra, a indústria criativa gera empregos a taxas mais altas do que a maioria dos outros setores da economia, obrigando o novo governo liberal-conservador a reforçar os investimentos na área, como informou há dias, de Londres, o colunista do GLOBO Rodrigo Pinto.
Na África, o músico senegalês Youssou N’Dour, um dos primeiros ídolos mundiais do pop africano, se tornou dono de uma emissora de televisão, através da qual se transforma em líder político cuja campanha é fundada na valorização da cultura local. Assim como, na Ásia, o cineasta sul-coreano Lee Chang Dong, um dos destaques do novo cinema asiático, premiado este ano em Cannes por seu pelo filme “ Poetry, foi até recentemente, ministro da Cultura de seu país. Durante sua gestão, os filmes da Coréia do Sul passaram a ocupar ( e ocupam até hoje ) 65% do mercado interno de exibição, dividindo com o Japão a preferência do público do resto do continente.
Na segunda metade do século 19, uma nova linhagem de pensadores se cansou de querer entender o mundo, decidiu que o importante era mudá-lo. A prática desse pensamento gerou o pior do século seguinte, suas tragédias, genocídios, opressão em todas as cores políticas. Neste século 21, através de outras formas de conhecimento, estamos retomando a idéia de tentar compreender o mundo e nossa presença nele, para melhor abordar a mudança. Não se trata mais de conhecer ou transformar, mas de mudar sabendo por quê .
Como fazer isso sem levar em consideração o imaginário humano, os sonhos e aspirações produzidos por ele ? Como fazer isso sem a cultura, a manifestação por excelência do homem sobre o universo ?
CACÁ DIEGUES é cineasta.
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É A CULTURA, IDIOTA
Enviado em julho 7th, 2010
Rodrigo Pinto, de Londres
Publicado no Segundo Caderno de “O GLOBO” no dia 06 de Julho de 2010
“a negligência, neste caso, poderá fazer do futuro presidente um idiota histórico”
Cresce no Reino Unido a idéia de que o setor cultural será um dos principais motores da recuperação econômica. E por que isso? Simplesmente porque vem sendo assim nos últimos 12 anos. Chamado de Indústria Criativa desde o início do governo Tony Blair, em 1997, o setor cultural cresce e gera empregos a taxas mais altas do que os demais. E com muito dinheiro público, o que não mudará com a aliança entre conservadores e liberais-democratas, agora no governo. O corte de 19 milhões de libras (cerca de R$ 50 milhões) no orçamento para a Cultura este ano foi bem menor que o esperado e será quase integralmente coberto por reservas do Arts Council England. Ou seja, na grana da Cultura, ninguém mexe, mesmo em tempos de cintos mais apertados.
Cultura no Reino Unido, é setor estratégico, jamais visto como supérfluo. E não se trata aqui de babação de ovo ou deslumbramento. A meu ver, tem muita porcaria difundida nesse país com dinheiro do Tesouro Britânico. Mas isso é uma questão de gosto – cada um com o seu. O fato é que desde os anos 90 os ingleses intensificaram o destaque ao setor cultural para dar solidez à economia. E o governo faz questão de segurar as pontas mesmo quando investidores privados, envenenados pela maior crise do capitalismo desde os anos 30, cortam recursos para a arte e afins em 7%. Afinal, no Reino Unido, o emprego na cultura cresce 2% ao ano, contra 1% no resto da economia. A riqueza gerada avança 5%, contra 3% nos demais segmentos (antes da crise, claro, porque agora a diferença será maior). E o Estado é ativo e grande em tudo – também na Cultura. Aliás, alguém aí conhece um país economicamente forte com um poder público fraco?
Assim a produção teatral é dominada por peças e casas de espetáculos bancadas com dinheiro dos cofres governamentais. “Cats”, por exemplo, gerou desde o lançamento mais dinheiro do que o filme “Titanic”. E a cada noite 34 mil pessoas assistem a espetáculos teatrais apenas em Londres. Em 2009, a bilheteria nos teatros da capital somou meio bilhão de libras, quase R$ 1,5 bilhão. Já os museus gratuitos, também bancados pelo Estado, recebem 40 milhões de visitantes ao ano, volume nunca antes visto na história desse país! A musica, por sua vez, contribuiu com 05 bilhões de libras (R$ 14 bilhões) anuais no PIB. O cinema, com R$ 12 bilhões.
O resultado é visível em toda a parte. Em que outro país suplementos dominicais de arte tem 80 páginas, caso do “Sunday Times”, ou um jornal cria uma sessão na qual os leitores são convidados a denunciar cortes no orçamento das cidades para as artes, como fez o “The Guardian”? Onde uma TV pública tem produções de cair o queixo, divididas em quatro canais livremente acessíveis também pela internet, caso da BBC? Ou ainda, onde se viram recentemente manifestações para salvar uma estação de rádio (a BBC6) e , em seguida, a audiência desta mídia passou a ser a mais alta da história, numa reação espontânea de ouvintes ávidos e satisfeitos com o serviço que dispõem? E onde mais estações de metrô destinam espaço a artistas pobres, e os congresso discute a ação dos cambistas com a mesma seriedade com que debate temas como educação e saúde?
E tudo isso respondendo a uma dinâmica de financiamento descentralizada e que estimula o crescimento de artistas e produtores iniciantes. Para conseguir dinheiro público, eles tem que, primeiro, realizar projetos de pequena escala nos bairros onde vivem, os “councils”. As administrações locais concedem financiamentos de até cinco mil libras, cerca de R$ 14 mil. Uma vez apresentado o trabalho, conforme regras estabelecidas em comum acordo, o artista então se habilita a concorrer a subsídios maiores, em escala nacional.
Para garantir que não haverá vacilo no uso da cultura na retomada econômica, já está informalmente em discussão o New Deal of The Mind, plano para recolocar os desempregados da crise, mas, desta vez, em vagas na Indústria Criativa. Um grupo formado pelos manda-chuvas do Southbank Centre, maior centro de artes do Reino Unido, da prestigiada Royal Opera House e do Heritage Lottery Fund, o cofre bondoso das artes, vem recolhendo idéias para o plano.
Na campanha presidencial no Brasil em 2010, os principais candidatos não explicitam propostas claras para o setor cultural. Nos sites de Dilma, Marina e Serra não há uma nova idéia sequer para a área. Marina, justiça seja feita, fala em aprovar o Plano Nacional de Cultura, cunhado pelo governo Lula e emperrado no Congresso. O curioso é que quem chegar lá vai surfar no embalo de um crescimento espetacular, mas ainda concentrado em setores tradicionais da economia. Mas por que não acelerar o avanço do país com apoio a um segmento claramente substimado? No Brasil, porém, ministros da Cultura vivem passando o pires, como se bancar a cultura fosse favor.
Se quisermos conjugar democracia, crescimento sustentável e distribuição de riquezas (materiais e intelectuais), teremos que avançar muito em mídia, games, moda, artes cênicas, casas de espetáculos, literatura, música, galerias e museus, entre outros. E com muito, mas muito mais dinheiro público. Cultura é demanda emergencial no Brasil.
Atenção candidatos, porque a negligência, neste caso, poderá fazer do futuro presidente um idiota histórico, assim como a economia o fez com tantos no passado.
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Novo Secretário de Cultura do Estado de São Paulo
Enviado em junho 14th, 2010
Logo após assumir a Secretaria da Cultura do Estado, o secretário Andrea Matarazzo recebeu um grupo de entidades, entre as quais a APTI, APETESP, e a Cooperativa de Teatro de SP, para tratar do grave problema do fim dos recursos do PROAC. (Na foto, Cenne, Andrea Matarazzo, Odilon Wagner e Leopoldo Pacheco)
O novo secretário se sensibilizou com a situação enfrentada pelos produtores culturais e se comprometeu em buscar soluções e nos chamar em breve para uma nova reunião.
Pelo que consta os recursos do PROAC acabam em Julho. Esse é o segundo ano consecutivo que os recursos acabam no meio do ano. Já é hora de se destinar um montante compatível com a demanda do setor.
(Presentes na reunião, Alain Fresnot, Paulo Pélico, Odilon Wagner, Teixeira Coelho, Cenne, Andrea Matarazzo, Leopoldo Pacheco, Marcelo Araújo, Eduardo Saron e André Sturm)
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GAMBIARRAS CULTURAIS
Enviado em abril 1st, 2010
Por Ediney Santana
Quando Gilberto Gil foi Ministro da Cultura ele nos provou que nunca deveria ter deixado os palcos. Gil acabou “entregando” o Ministério ao seu amiguinho Juca Ferreira. Juca, todos os dias, deve acender uma vela para São Gilberto Gil; ter um amigo como esse pode valer, como valeu, um cargo de ministro. Juca só era amigo da pessoa certa na hora incerta para a cultura nacional.
Sinto-me constrangido e humilhado quando vejo o Ministério da Cultura e empresas como a Petrobras financiando “artistas” os quais justamente não precisam de patrocínio público, enquanto inúmeros grupos da cultura imaterial, folclóricos ou instituições culturais sérias, que realmente necessitam de investimentos públicos, são tratados com indiferença ou a pão e água.
Na Secretaria da Cultura do Estado da Bahia temos a reprodução bizarra das anti-politicas públicas adotadas pelo MinC. Um secretário sem vocação para o gerenciamento público ou para as contradições que é lidar com um universo tão plural quanto o universo cultural do Estado.
Márcio Meireles , assim como seu colega Juca, tem um bom amigo, ou melhor, amiga: a ausente primeira-dama do Estado: não foi ela sozinha que decidiu quem deveria ser nosso Secretário da Cultura? Boa parte dos políticos da Bahia e indicadores de cargos públicos nunca leram nem “As aventuras de um secretário no reino dos espelhos” quanto mais um Herculano Neto ou foram ao teatro. Por tudo isso um Juca ou um Meireles podem gerir a cultura do Estado e do país como se fossem os banheiros das suas casas.
Todo mundo lembra-se da peça teatral de 5º categoria que foi a posse do Secretário da Cultura do Estado, na Rocinha, Pelourinho. Aconteceu de tudo: lágrimas encomendadas, fotos, caras e bocas e, é claro, muita esperança falsa. Depois de quase quatro anos os moradores da Rocinha continuam lá sem política pública alguma, convivendo com a única presença do Estado em suas ruas: o braço repreensivo da polícia, em um lugar o qual seu Márcio jurou ajudar e incluir nas políticas públicas de seu governo.
A Rocinha foi a primeira vítima de um governo sem verdade, governo de “amigos”, governo tão estupidamente seletivo quanto qualquer outro, um governo que não resistiu a sedução do poder e enquanto vai se perdendo nesse triste e vazio jogo de sedução, as luzes da cultura baiana vão, pouco a pouco, se apagando: teatro sem público, músicos sufocados por uma produção carnavalesca sem compromisso algum com o que não for lucro, grana e mass media , artistas plásticos desprezados e sem espaços decentes para expor suas obras, escritores sem incentivo algum, enfim, a cultura da Bahia está na UTI, do HGE, é claro. Então, já sabemos o que pode acontecer.
No interior do Estado a situação não é diferente da capital. A incompetência do governo vem mascarada nos Pontos de Cultura (ideia boa, mas estupidamente gerenciada), nos intermináveis seminários ou cursos sem função nos quais os agentes do governo esbanjam prepotência e sub-cultura política; os conselhos de cultura das prefeituras não raro vivem a mercê da delinquência de prefeitos os quais não deixam passar nem as migalhas oficiais que deveriam ser totalmente investidos no fomento cultural dos municípios.
Esperar melhora nesse quadro é pura ilusão. Cultura e educação não estão na ordem do dia. O legado cultural de um povo não cativa muitos eleitores. Eleitores são cativados por bolsa família, “banho” de luz, “banho” de asfalto e “ moderníssimo” estádio da Nova Fonte Nova para dois mambembes times jogarem.
Assim mata-se lentamente o fazer cultural de um povo; assim a Bahia é empurrada para um estágio primitivo de civilização no qual não há espaço para fantasia, sonhos e a sempre busca de novas utopias. Nesse governo não podemos confiar, mas na força inventiva de cada um de nós, na resistência por um lugar melhor e na luta pela nunca perda da dignidade podemos sim, nisso, ter um poderoso aliado para enfrentarmos essa mediocridade a qual tentam nos servir em prato indigesto e requentado como se fosse novidade, quando não é nada além de vandalismo político e social.
Ediney Santana
O escritor Ediney Santana nasceu em Mundo Novo – Chapada Diamantina-Ba. Vive em Santo Amaro- Recôncavo-BA
http://cartasmentirosas.blogspot.com
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STEPAN NERCESSIAN TAMBÉM QUER ISENÇÃO DE ISS PARA A CULTURA NO RIO
Enviado em abril 1st, 2010
A lei sancionada recentemente pelo Prefeito Gilberto Kassab, dando isenção de ISS para a Cultura, aqui na cidade de São Paulo, foi uma das maiores conquistas do nosso setor nos últimos anos. Para se ter uma idéia do alcance, a produção cultural vai ter uma desoneração de aproximadamente 5 milhões de reais, somente no ano de 2010.
Nosso colega, ator e Vereador Stepan Nercessian, quando soube da notícia, imediatamente propôs ao prefeito do Rio, Eduardo Paes, que apresente à Câmara lei semelhante na cidade maravilhosa.
É rastilho de pólvora, logo, logo todos os municípios do Brasil vão caminhar na mesma direção, beneficiando a produção cultural em todo o país.
Parabéns Stepan pela iniciativa. Viva!
Tags: ISS, Política Cultural, Politicas Publicas
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